Campinas amplia acesso da população surda a serviços públicos com Libras presencial e digital - 03/01/2026

A Central de Interpretação de Libras (CIL), da Prefeitura de Campinas, oferece atendimento em Língua Brasileira de Sinais para garantir que pessoas surdas tenham acesso a serviços públicos do município. O serviço conta com intérpretes presenciais, externos e remotos, que acompanham os cidadãos em atendimentos como saúde, assistência social, Justiça e INSS.

 

Leandro Almeida Leite, 46 anos, é usuário frequente da CIL. Surdo, ele se comunica em Libras e conta com o apoio das intérpretes para resolver questões do cotidiano, como atendimentos no INSS, consultas de saúde e orientações administrativas. "Eu consegui o benefício porque o intérprete estava comigo. Sozinho, talvez tivesse perdido o direito", resume.

 

Campinas tem 13.561 pessoas surdas, segundo o Censo de 2022. Para atender essa população, o município criou a CIL em 2015, oferecendo atendimento presencial, remoto e externo. Intérpretes acompanham munícipes em unidades de saúde, audiências judiciais, perícias do INSS, CPAT e outros serviços.

 

"Quando a comunidade surda acessa seus direitos sem intermediários informais, rompemos uma barreira invisível. O atendimento em Libras é, antes de tudo, um gesto de respeito", afirma a secretária de Desenvolvimento e Assistência Social, Vandecleya Moro.

 

Entre julho e setembro de 2024, a equipe da CIL dobrou, passando de três para seis intérpretes. A ampliação refletiu uma compreensão central da política pública: acessibilidade não se resolve apenas com placas ou protocolos, mas com pessoas capacitadas no momento certo. "Não basta ter o serviço, é preciso garantir que ele funcione onde e quando o cidadão precisa", destaca Vandecleya.

 

Além da CIL, Campinas implantou o Acessa Libras, central digital de intérpretes 24 horas, acessível por aplicativo, site e QR Code nos serviços municipais. Lançado em fevereiro de 2024, o sistema permite atendimento remoto em Libras, com internet patrocinada, sem custo para o usuário.

 

"A acessibilidade precisa atravessar todas as políticas públicas", afirma Vandecleya. "O Acessa Libras mostra como a inclusão começa na escuta real das necessidades da população."

 

 

A admissão de futuras servidoras surdas teve as profissionais do CIL como tradutoras/sites/default/files/noticias/img-avulsa/admiss%C3%A3o%20-%20firmino.jpg

 

Ao completar dez anos, o Centro de Interpretação de Libras comemorou e funcionárias falaram que a passagem do tempo mostrou que a unidade é importante e o trabalho deve continuar/sites/default/files/noticias/img-avulsa/CMEMORA%C3%87%C3%83O%20DEZ%20A%20NOS%20cil_%20cAPELA.jpg

 

Em quatro anos, mais de dez mil atendimentos

 

Os dados confirmam a capilaridade alcançada pela CIL. Em quatro anos, o serviço realizou 10.531 atendimentos — 7.280 remotos, 1.979 internos e 1.272 externos. Já o Acessa Libras registra maior demanda na Saúde (566 atendimentos), seguida da Assistência Social (190) e da Educação. Mais de 30 órgãos municipais já utilizaram a plataforma, incluindo hospital, saneamento, segurança pública e serviços urbanos.

 

Para as intérpretes, o trabalho vai além da tradução literal. "A gente traduz contextos", explica Monalisa Bellinatti. Muitas vezes, é preciso intermediar situações complexas, como falhas de agendamento, atendimentos médicos ou barreiras institucionais que insistem em tratar o intérprete como acompanhante, e não como recurso legal de acessibilidade.

 

Leandro lembra de uma sessão de psicoterapia em que, com a presença da intérprete, conseguiu se expressar plenamente. "Eu me senti, pela primeira vez, realmente compreendido", conta. "Aí, chorei."

 

Apesar dos avanços, os desafios permanecem. A equipe ainda é limitada frente à demanda, o atendimento em Libras exige mais tempo e há resistência em alguns serviços. "Inclusão não cabe em agenda de 15 minutos", resumem as intérpretes.

 

Mesmo assim, a política avança. Ao combinar atendimento presencial, tecnologia e ampliação de equipes, Campinas consolida um modelo que reconhece a Libras como língua e a comunicação como direito. "Mais do que receber benefícios, essas pessoas querem ser vistas como cidadãs plenas", diz Vandecleya. "Cabe ao poder público garantir isso com dignidade e presença do Estado."

 

Luanna Steplani contou com a ajuda da equipe da CIL para tomar posse no seu cargo na Prefeitura/sites/default/files/noticias/img-avulsa/surda%20-%20ded%C3%A3p.jpg